|

Onde está o poeta russo?
Se Henry Miller conhecesse a obra do poeta Russo escreveria sobre ele jamais sobre
Rimabaud. Seu Tempo dos Assassinos começaria em julho de 1964 quando o poeta foi preso e torturado por ter o sobrenome Russo e terminaria em 1968 quando ele atravessou as fronteiras do Brasil não agüentando mais as pressões sociais.
Não pretendo aqui abusar da paciência do leitor com detalhes sem importância sobre um dos poetas mais importantes esquecidos do nosso pais. Também não desejo reivindicar a glória de ter descoberto semelhante gênio para as letras da pátria. Espero apenas te que sejamos justos e reconhecidos com um dos homens mais ousou sem temer as conseqüências nesta pequena província tão cruel e sufocante.
Foram dois anos de intensas pesquisas em sótãos junto a amigos comuns para reconstituir apenas pequena parcela do que o poeta João Fernandes Russo realizou. Nada há de oficial sobre ele, jamais disputou um prêmio, jamais publicou poema em jornal ou revista literária, apenas um único livro editado(a semelhança de Rimbaud ), por seus próprios meios e distribuídos de mão em mão.
Além deste volume chamado O Livro das Coisas, tenho em meu poder diversos manuscritos e farta correspondência trocada entre ele e Ana Amélia Guimarães, musa trágica do poeta. Mas a análise exige rigorismo histórico, por isto pretendo fixar corretamente os registros que disponho.
João batista Russo nasceu em Livramento entre 1945?Em 52 perdeu o pai, vítima de um desacerto com um policial uruguaio sobre contrabando de gado.Logo após a morte do pai, chegou em Porto Alegre acompanhado da mãe para residir com um tio de nome Justino, morador no bairro do
Partenon. Poucos meses depois a mãe abandonou João aos cuidados do tio e sumiu, não sendo mais vista. Presume-se que tenha seguido para o Rio de Janeiro atrás de um cantor e boleros que naquela época havia realizado uma temporada com a revista Tem Bubu no Bobobó no extinto cine-teatro
Rivoli.
Justino, tio de João Batista, era atendente psiquiátrico do Hospício São Pedro e reuniu o máximo de seus esforços para a educação da criança. Homem solteiro, de boa índole, como não tinha com quem deixar o menino fazia acompanhá-lo durante o trabalho.As primeiras letras João aprendeu nas noites passadas ao lado do tio. A lucidez e a criatividade de sua obra (que não acredito encerrada), já que ela é aberta e o poeta continua vivo, possivelmente herdou deste fértil período que passou entrado e saindo daquele nosocômio.
Vamos vê-lo adulto no início de 1964 residindo numa pensão na Cidade Baixa nutrindo profundo ódio aos sonetos e por isto escrevendo um livro inteiro deles. Neste livro (possuo manuscrito), João Batista demonstra quão desnecessária, absurda e ridícula e imbecil é esta forma poética. Retiro uma pequena mostra par que os leitores se deliciem com a sua gênese poética;
Na janela tenho um banjo,
na lapela penduro um anjo
ou será um papagaio?
Ou ainda cada macaco no seu gaio?
O resto do soneto está ilegível (escrito a lápis)e cabe ressaltar que estes sonetos não constam do Livro das Coisas, mimeografo em 1965 em certa gráfica clandestina, João Batista, como Erza Pound utilizando-se da montagem cinematográfica dos ideogramas chineses, como
Maiacoviski, escreve uma laudatória ode vermelha onde tudo no mundo é revolucionário; como Marineti adere à velocidade do fascismo e como Tristan Tzara retorna a linguagem do útero materno, como Osvaldo e Andrade dá coices na língua; como Drumonnd chora e lamenta a sua impotência diante do cotidiano, como Neruda faz uma salada de vegetais animais e minerais. Isto sem perder a sua radical originalidade.Contudo, desmonta o alfabeto, dá valores matemáticos e espirituais a cada letra.Inventa um aparelho para calçar luvas e o Jogo do Cuspe.Este último um jogo anti-higiênico e que já mencionei em outra publicação, mas aqui não merece registro, pois nada acrescenta ao trabalho criativo do autor.
Ainda não esclareci o papel desempenhado pela trágica musa do poeta, Ana Amélia Guimarães que quase morreu de desgosto em 1972. Conheceram-se em abril de 1967. Ana passava na avenida Protásio Alves e encontrou João Batista dobrando-se de rir, próximo ao local onde agora existe o viaduto da
Mariante.
_Está passando mal? _ perguntou ela.
_Não, só estou rindo_ respondeu.
_Mas está com os olhos vermelhos, está rindo de quê?Tem certeza que não está passando mal?
_Claro que não.Vê aquela fila que em frente daquela obra?
_Vejo sim, e daí?
_Não acha um movimento orgânico interessante?
_Não entendo
_Acabei de fazer um poema.
_Um poema?
_Sim um poema, escrevi com carvão, ali na parede da obra: Há Vagas . Pronto!Meia hora depois se formou esta enorme fila de operários a procura de emprego.
_Rindo dos pobres coitados? _Pobres sim, mas basta eles derrubarem aquela porta da obra e tomarem conta do edifício, se quiserem.
Este foi o diálogo que enfeitiçou Ana Amélia, deixando-a perdidamente apaixonada pelo poeta. Reproduzi o diálogo mais coerente que achei deste encontro, uma vez que João Batista tem um livro único narrando o encontro de 160 maneiras diferentes.
Se ele foi banido ou se saiu de livre espontânea vontade do país em 1968 não pude ainda apurar com exatidão. Mas segundo informações colhidas com os amigos, ele andou na África, traficando armas(novamente a semelhança com Rimbaud), e vendeu rádios de pilha no Japão.Um cartão postal de Nova Deli datado de 1972, indica que esteve num retiro de monges no Tibet, usando o nome de Sri Ourobindo Majarich. Rumores não confirmados apontam o seu retorno como monge budista em Porto Alegre, no final de 1977 a Porto Alegre onde proferiu algumas palestras na sede da grande fraternidade Universal e tornou a sumir. Caro leitor se você sabe onde anda, já viu, ouviu e conhece João Batista Fernandes Russo, telefone imediatamente para Ana Amélia Guimarães( o número está na lista telefônica) e será bem recompensado.
Publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo
|
home
contos
ensaios
poemas
livros publicados
inéditos
referências
imprensa

|
|