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marco celso huffell viola                                       ensaio I I  forward

  Uma quadra revelada das Centúrias *  
 
                                                                             forwardHai kais

 

                                            Prefácio baseado em nota de jornal *

 

  Caro senhor, editor do Jornal de Letras, permita-me fornecer uma retificação a nota  veiculada em seu jornal  edição  nº 12, onde havia uma pretensa explicação sobre a natureza e estrutura do hai kai. Afirmava, apenas, a referida nota que o poeta brasileiro Guilherme de Almeida (1930-1980)  havia estabelecido regras para  a criação dos hai kais,  onde a rima era um padrão no poema bem como sua estrutura silábica de 5 ,7, 7, em cada verso..        Guilherme de Almeida não criou o hai-kai, suas raízes  estão no Japão, onde esta forma poética foi efetivamente criada. Os primeiros registros sobre a mesma datam do século XIV e tem a sua origem ligada aos mais importantes e expressivos poetas daquele país. Sua criação e evolução deu-se através da associação a outro gênero poético denominado Renga (Ren - seqüência, unir, ligar e Ga poema). Este último estilo era  praticado pelos poetas que compunham um poema em seqüência que poderia chegar até 100 versos.

Nesta arte poética, popular, que contrastava com arte elitista praticada na corte, era necessário o poeta realizar o primeiro poema (denominado hokoku,que significa poema inicial), este poema inicial deveria ser situado numa estação do ano (kigo) com uma métrica com  de 5,7 e 5 sílabas, o poeta seguinte respondia com o esquema 7,7  sílabas e o terceiro voltava ao  esquema inicial. A fórmula permitia encadear poemas iniciais e poemas-respostas infinitamente.

                 São considerados criadores do haikai-no-renga os poetas Yamazaki Sokan (1460-1540), Arakida Moritake (1473-1549). Cabe ao poeta  Matsunaga Teitoku (1571-1653),a reformulação do hai kai no renga depurando a sua vulgaridade sem eliminar os elementos de comicidade e de diversão, objetivos primeiros deste gênero poético.

                O reformulador seguinte foi Matsuo Basho ((1644-94), pseudônimo de Matsuo Munefusa), a origem de seu pseudônimo deve-se ao se local de meditação (ba- soh).Ele não apenas separou o renga, destacando  apenas o primeiro poema, mas também aprofundou sua construção dando-lhe uma dimensão espiritual   associada à visão zen budista do universo. Basho, aos mexer com a estrutura do hai kai estabeleceu então, este novo gênero poético, sem, contudo deixar de observar o sistema original dele.É necessário dizer que a rima nunca foi imprescindível no kokoku e nem nesta nova criação do poeta Basho. 

  natsu gusaya
tsuwa monodo moga
yume no ato

  Tradução:

Tudo o que restou, / Dos sonhos dos guerreiros — / Capim de verão.

  ou o seguinte poema de Issa (1612- 162)

  kakatsumori
soro soro nobore
fuji no yama

  Tradução:

Caramujo, / Suba sem pressa / O Monte Fuji!

         A questão da tradução, também, muitas vezes deixa a desejar. Pois os caracteres japoneses, (kangis) ou ideogramas como conhecemos precisam ser transladados para o romangi, que são caracteres latinos, criando  muita dificuldade para  quem não tem a mínima noção daquele idioma. A tradução do poema acima também poderia ser feita da seguinte maneira: “ caracol, suba vagarosamente, a Fuji Montanha.

 Na última frase do poema, por exemplo, o kangi (ideograma) que corresponde a montanha é formado por dois ideogramas, o Ya  e o outro Ma. Então, a frase seria: Fuji A Montanha e não o Monte Fuji.

Muito mais importante que a rima é a estrutura do poema e seu significado.

       Agora, voltando a Guilherme de Almeida, ele, Guilherme, não foi um dos primeiros poetas a  praticar este gênero no Brasil,há indícios que, anteriormente no Brasil,  Luis Aranha, Waldomiro Siqueira Jr, entre outros(3), já os conheciam e praticavam os hai kais.  A rima é questão irrelevante e, nem em Guilherme de Almeida e, nem nos poetas japoneses foi ou é imprescindível na estrutura  do poema.

De acordo com o poeta uruguaio Carlos Fleitas,(1) um dos mais importantes ensaístas latinos-americanos que segue a tradição de Otávio Paz,  ele mesmo praticante da arte do haiku, enquanto tradicionalistas buscavam fazer o haiku retornar as suas origens iniciando com um kigo e mantendo o esquema silábico rígido “también es de hacer notar que un «haiku» para muchas escuelas no necesariamente debe seguir el esquema 5-7-5 ni incluir un kigo.muchas tendencias y renovaciones en Japón y luego en Occidente.  Es una forma que podriamos llamar haiku libre. Tiene antecedentes en Japón. Esto supone la inclusión de temas que eran completamente ajenos a los maestros fundadores y con ausencia de métrica silábica”.

                                                           TAO e ZEN

 

                Se quisermos entender qualquer aspecto da cultura japonesa em suas múltiplas  manifestações devemos buscar na China suas raízes.A origem da língua japonesa, por exemplo encontra-se na China:”Pour bien comprendre comment les kanji sont apparus dans la langue japonaise, il faut essayer de se placer dans le Japon du VII ème siècle... A cette époque, les japonais savent déjà parler la langue, mais ne possèdent pas de système d'écriture. D'un autre côté, la Chine est un pays très influent et doté d'une avance technique supérieure aux autres pays. Et c'est petit à petit que les japonais s'imprègnent de la culture chinoise et finissent par adopter leur système d'écriture à savoir, les idéogrammes chinois ou kanji.”

                Ces deux tendances aboutiront au système d'écriture actuel que l'on peut qualifier d'hybride, mêlant 3 styles d'écriture (hiragana, katakana et kanji), sans compter les caractères latins également utilisés dans certains cas. Mais pour compliquer encore plus les choses, il faut savoir aussi que les idéogrammes utilisés au Japon sont issus de différentes époques voire même de diverses provinces et dialectes, et qu'un même caractère chinois peut parfois comporter plusieurs équivalents en japonais. D'où la complexité de ce système d'écriture, unique au monde.(8)

                Basho era um estudioso da poesia chinesa. Mesmo a origem o haiku, aparentemente uma arte completamente japonesa tem lá, no continente, sua base e razão de suas transformações.        

                Etimologicamente a palavra Hai, que no japonês equivale a um “sim”, aplicado ao gênero poético, conforme nota  Carlos Fleitas, “não se resolve de forma tão simples assim, pois indica um tipo de jogo verbal de origem chinesa já no século X ,  um tipo de fórmula poética popular que buscava a diversão e o humor.”

A origem deste gênero poético pode estar naquilo que Tomas Merton em sua Via Chuang Tzu (3) descreve desta forma: “os herdeiros reais do pensamento e espírito de Chung Tzu, são os budistas chineses do período Tang (séculos VII ao X DC).

Mas Chung Tzu continuou a exercer uma influência  em todo o pensamento culto da China, pois nunca deixou de ser reconhecido como um dos escritores e pensadores do pensamento clássico.O Taoísmo sutil, sofisticado, místico, de Chung Tzu e Lao Tzu deixou marcas permanentes em toda a cultura chinesa e no próprio caráter chinês.

Na China, anterior ao século 16, todos os aspectos culturais estavam impregnados pelo Taoísmo.

“Nunca deixaram de existir autoridades como Distz T. Susuki, erudito japonês do Zen que  considera Chuan Tzu , o maior filósofo chinês. Não há nenhuma dúvida de que este tipo de  pensamento e de cultura expressos por  Chung Tzu foi aquele que transformou o Budismo hindu, altamente especulativo, num tipo humorístico, iconoclasta e totalmente  prático de Budismo, que floresceu na China e no Japão nas várias correntes do Zen”.

Esta ligação apontada por Tomas Merton está presente na forma e na estrutura da poesia e dos textos de Chuang Tzu, onde: “ metade dos personagens  que desfilam diante de nós ..são animais – pássaros, peixes, sapos, etc. O Taoísmo de Chuag Tzu se caracteriza  pela nostalgia  do clima primordial do paraíso onde não existia nenhum diferenciação, no qual o homem era muito simples, desligado se si, vivendo em paz consigo mesmo com o Tao e as demais criaturas”.

Este tipo de  relação profunda entre o homem e a natureza, que o cerca, pode ser observado no poema A Alegria dos Peixes.

 

Chung Tzu e Hui Tzu

Atravessavam o rio Hao

Pelo Açude.

Disse Chuan:

veja como os peixes

Pulam e correm tão livremente:

Isto é sua felicidade.

Responde Hui: Desde que você não é um peixe

Como sabe

O que torna os peixes felizes?

Chuang respondeu:

Desde que você não sou eu.

como é possível que saiba

o que eu sei

o que torna os peixes felizes?

Hai argumentou: Se eu não sendo você

não posso saber o que você sabe

daí conclui que você

não sendo peixe

não pode saber o que eles sabem

Disse Chuan;

_Um momento:

 vamos retornar

a pergunta primitiva,

o que você me perguntou foi :

Como você sabe

O que torna os peixes felizes?

Dos termos da pergunta

você não sabe, evidentemente,o que eu sei

o que torna os peixes felizes.

Conheço as alegrias dos peixes do rio

através  da minha própria alegria a medida

que vou caminhando à beira do mesmo rio.

             Estes mesmos princípios do taoísmo, associação da paz,alegria, quietude e união entre o homem e a natureza pode ser observado no clássico de Basho:

                                                              Na lagoa antiga

 uma rã mergulha

   o som da água, plop

 

Esta visão  que muitos críticos apressados associam  ao naturalismo ou simbolismo,  cometem um erro profundo não percebendo que esta  arte  não é, como diz Otávio Paz(2), uma formulário literário, mas uma maneira de viver inteiramente a riqueza e a diversidade humana.E não cabe nas classificações literárias tão a gosto de nossos banalizadores  míopes do mundo.

Otávio Paz, também afirma que os objetivos de Basho não são apenas artísticos, mas espirituais.

Assim, esta arte praticada por Basho e seus continuadores, faz esta inter-relação do homem com seus diversos aspectos espirituais onde a natureza externa com seus reinos diversos é coadjuvante neste processo.

Quando o poeta  Onitsura (1660-1738), escreve:

 

Obediência  verdadeira:

Silenciosamente às flores falam

A orelha interna (9)

 

Está falando desta conversa mística, entre os aspectos externos da natureza e a capacidade do homem de apreender e obedecer a estes ritmos não apenas vendo, mas ouvindo, sentido a natureza em suas manifestações.

Outro aspecto importante desta arte mística é o satori.

                O haiku é uma proeza verbal que exige do autor enorme poder de síntese capaz de arrancar o leitor de uma realidade que ele está habituado e jogá-la em outra completamente diversa. Isto é feito com uma economia de palavras surpreendente, o hai ku como a arte zen, que abrange a mudança de expressão do ator do teatro nô, a cerimônia do chá, passando pela a arte da caligrafia, está impregnado pelo mesmo princípio. É uma arte objetiva e bem definida: é um condão para a alma que pode provocar a iluminação (satori) para quem entra em contato profundo com este processo artístico. Otávio Paz o considera hai kai o próprio satori.

              Como nós ocidentais somos frutos de uma cultura materialista diversa  temos dificuldade de entender que iluminação é esta e qual o seu valor. Percebemos nesta arte alguma coisa de estranho, misterioso, belo, mas não a entendemos. Poderíamos descrever, de um forma um tanto vulgar, que esta iluminação é  semelhante aquele instante do narrador que conta uma piada e vê o rosto do ouvinte se transformar com um brilho diferente ao entender  o final da narrativa e rir da mesma. Como a transcendência do haiku manteve sua pureza e não possui equivalência para nós, percebemos a beleza do poema de Bashô:

 

"em cima da neve

o corvo,esta manhã,

         pousou bem de leve." (7)

 

 A diferença, a delicadeza, a surpresa, as antíteses que a vida está sujeita em que o poema é a síntese, pode ser apontada neste poema,ele nos mergulha de cabeça em outro universo onde não há contrastes e a sua beleza é apenas sentida impossível de ser verbalizada, pois não existe nada além do já  enunciado no poema.

A simplicidade desta arte é enganosa, ele exige de quem o cria este comprometimento,o mesmo envolvimento espiritual,não necessariamente zen budista, mas com com uma visão do universo e suas manifestações, senão torna-se um pequeno verso banal de três linhas como milhões de outros que existem vazios de sentido e razão d´`ètre.

           

                                           AS TRÍADES BARDICAS

 

          O mais próximo a esta construção de três versos,no ocidente, são as tríades  bárdicas,de origem celta.As tríades seguem a metrologia druídica, todas elas são compostas em função do número três e totalizam 81 versos (que dividido por três é igual a 27 que somado entre si é igual a nove). Por estas relações, de acordo com as tríades, de três, nove, 27 e 81 se estrutura a construção do universo e as múltiplas inter-relações  com os seres que dele fazem parte.

                De profunda conotação espiritual as tríades são usadas até hoje pelos bardos para ensinar estes diferentes aspectos do universo e da criação e são praticamente imutáveis em seu texto e estrutura: "Existem três círculos, Keugant, Abred e Gwenwed"(5).

Mas o acesso a estas tríades está restrito a uns raros integrantes destes grupos bárdicos que continuam as utilizando em seu aspecto tradicional de ensino e portanto, distante da cultura ocidental, primária, vulgar e imediatista.

O uso do três e seus múltiplos, tanto nas tríades, quanto no hai ku, obedece aos mesmo princípio, onde arte mantém seu sentido em busca e, em relação com o eterno.

Neste aspecto, também, é impossível esquecer o rubai, com seus três versos rimados entre si e o quarto branco, gênero clássico das letras árabes que o poeta sufi, persa, Abu ol-Fath ebn-Ebrahim ou  Omar Khayyam imortalizou:

 

             "Um pedaço de pão sobre a relva ensombrada,

               Um livro de poesia, a urna de vinho e a amada

               No deserto a cantar, sonorosa a meu lado,

               Mudando a solidão num Éden encantado!" (6)

 

Apesar de existir na poesia (de origem greco-romana) em alguns casos, este rigor matemático onde se pode perceber que  sistema usado na construção destes poemas têm raízes comuns com o sagrado nas relações de harmonia e métrica,pois cada  formulação também indica uma relação cósmica, como a  sextilha (seis versos de sete sílabas:o seis que geometricamente equivale a figura dos dois triângulos sobrepostos, indicando a ação entre deuses e os seres humanos e o sete; sete musas, sete planetas, sete dias da semana),nos hexâmetros, no alexandrino (doze sílabas, os doze pontos do zodíaco), o poema sáfico, entre outros,onde a rima e a métrica se confundem e a harmonia é forçada,mas pouco sobrou destes gêneros poéticos de importante ou de interesse e o que resta está muito distante da síntese obtida pelo haikai.

 

 Bibliografia

Jornal das Letras-jornal de literatura, número 12,editado em Porto Alegre- RS(*) Prefácio do livro A Lua e o Vento do autor

Carlos Fleitas/www.millikin.edu/haiku/ writerprofiles/CarlosFleitas.html (1)

Octavio Paz y Eikichi Hayashiya: Matsuo Basho Sendas de Oku, Breve Biblioteca de Respuesta, Barral Editores, Barcelona España 1970 (2)

O hai-kai verde-amarelo em discussão/ www.kakinet.com (3)

Tomas Merton -A Via de Chung Tzu-Editora Vozes-Brasil (4)

As 81 Tríades /Coleção do autor (5)

Omar Kayyam. Rubayat/Introdução tradução e notas de Jamil Almansur Haddad baseado na tradução de  Edward J. Fitzgerald

Ed. Civilização Brasileira- 1964(6)

Hai- Kais/Millôr Fernandes Ed. - L& PM Pocket (7)

Dicctionnaire des Kanji Japonais/ http://kanji.free.fr/(8)

Alan Chang/ http://www.geocities.com/Tokyo/Island/5022/index.htm(9)

                                                                                                                 ensaio2forward


           
                  


 

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