|
|||||||
|
|
|
|||||
|
|
|||||||
|
marco celso huffell viola ensaio I I |
||
|
Uma quadra revelada das Centúrias * Prefácio baseado em nota de jornal Nesta arte poética, popular, que contrastava com arte elitista
praticada na corte, era necessário o poeta realizar o primeiro poema
(denominado hokoku,que significa poema inicial), este poema inicial deveria
ser situado numa estação do ano (kigo) com uma métrica com de 5,7 e 5 sílabas, o poeta
seguinte respondia com o esquema 7,7 sílabas
e o terceiro voltava ao esquema
inicial. A fórmula permitia encadear poemas iniciais e poemas-respostas
infinitamente.
São considerados criadores do haikai-no-renga os poetas
Yamazaki Sokan (1460-1540), Arakida Moritake (1473-1549). Cabe ao poeta Matsunaga Teitoku (1571-1653),a
reformulação do hai kai no renga depurando a sua vulgaridade sem eliminar
os elementos de comicidade e de diversão, objetivos primeiros deste gênero
poético.
O reformulador seguinte foi Matsuo Basho ((1644-94), pseudônimo de
Matsuo Munefusa), a origem de seu pseudônimo deve-se ao se local de meditação
(ba- soh).Ele não apenas separou o renga, destacando apenas o primeiro
poema, mas também aprofundou sua construção dando-lhe uma dimensão
espiritual associada à visão zen budista do universo. Na última frase do poema, por
exemplo, o kangi (ideograma) que corresponde a montanha é formado por dois
ideogramas, o Ya e o outro Ma.
Então, a frase seria: Fuji A Montanha e não o Monte Fuji. Muito
mais importante que a rima é a estrutura do poema e seu significado. Agora, voltando a Guilherme de Almeida, ele, Guilherme, não foi um dos primeiros poetas a praticar este gênero no Brasil,há indícios que, anteriormente no Brasil, Luis Aranha, Waldomiro Siqueira Jr, entre outros(3), já os conheciam e praticavam os hai kais. A rima é questão irrelevante e, nem em Guilherme de Almeida e, nem nos poetas japoneses foi ou é imprescindível na estrutura do poema. De
acordo com o poeta uruguaio Carlos Fleitas,(1) um dos mais importantes ensaístas
latinos-americanos que segue a tradição de Otávio Paz, ele mesmo praticante da arte do
haiku, enquanto tradicionalistas buscavam fazer o haiku retornar as suas
origens iniciando com um kigo e mantendo o esquema silábico rígido “también es de hacer
notar que un «haiku» para muchas escuelas no necesariamente debe seguir
el esquema 5-7-5 ni incluir un kigo.muchas tendencias y renovaciones en Japón
y luego en Occidente. Es
una forma que podriamos llamar haiku libre. Tiene antecedentes en Japón.
Esto supone la inclusión de temas que eran completamente ajenos a los
maestros fundadores y con ausencia de métrica silábica”.
Se quisermos entender qualquer aspecto da cultura japonesa em suas múltiplas manifestações devemos buscar na
China suas raízes.A origem da língua japonesa, por exemplo encontra-se na
China:”Pour bien comprendre comment les kanji sont apparus dans la langue
japonaise, il faut essayer de se placer dans le Japon du VII ème siècle...
Ces deux tendances aboutiront au système d'écriture actuel que l'on
peut qualifier d'hybride, mêlant 3 styles d'écriture (hiragana, katakana
et kanji), sans compter les caractères latins également utilisés dans
certains cas. Mais pour compliquer encore plus les choses, il faut savoir
aussi que les idéogrammes utilisés au Japon sont issus de différentes époques
voire même de diverses provinces et dialectes, et qu'un même caractère
chinois peut parfois comporter plusieurs équivalents en japonais. D'où la
complexité de ce système d'écriture, unique au monde.(8)
Basho era um estudioso da poesia chinesa. Mesmo a origem o haiku,
aparentemente uma arte completamente japonesa tem lá, no continente, sua
base e razão de suas transformações.
Etimologicamente a palavra Hai, que no japonês equivale a um
“sim”, aplicado ao gênero poético, conforme nota Carlos Fleitas, “não se resolve
de forma tão simples assim, pois indica um tipo de jogo verbal de origem
chinesa já no século X , um
tipo de fórmula poética popular que buscava a diversão e o humor.” A
origem deste gênero poético pode estar naquilo que Tomas Merton em sua
Via Chuang Tzu (3) descreve desta forma: “os herdeiros reais do
pensamento e espírito de Chung Tzu, são os budistas chineses do período
Tang (séculos VII ao X DC). Mas
Chung Tzu continuou a exercer uma influência em todo o pensamento culto da
China, pois nunca deixou de ser reconhecido como um dos escritores e
pensadores do pensamento clássico.O Taoísmo sutil, sofisticado, místico,
de Chung Tzu e Lao Tzu deixou marcas permanentes em toda a cultura chinesa
e no próprio caráter chinês. Na
China, anterior ao século 16, todos os aspectos culturais estavam
impregnados pelo Taoísmo. “Nunca
deixaram de existir autoridades como Distz T. Susuki, erudito japonês do
Zen que considera Chuan Tzu ,
o maior filósofo chinês. Não há nenhuma dúvida de que este tipo de pensamento e de cultura expressos
por Chung Tzu foi aquele que
transformou o Budismo hindu, altamente especulativo, num tipo humorístico,
iconoclasta e totalmente prático
de Budismo, que floresceu na China e no Japão nas várias correntes do
Zen”. Esta
ligação apontada por Tomas Merton está presente na forma e na estrutura
da poesia e dos textos de Chuang Tzu, onde: “ metade dos personagens que desfilam diante de nós ..são
animais – pássaros, peixes, sapos, etc. O Taoísmo de Chuag Tzu se
caracteriza pela nostalgia do clima primordial do paraíso onde não existia nenhum
diferenciação, no qual o homem era muito simples, desligado se si,
vivendo em paz consigo mesmo com o Tao e as demais criaturas”. Este
tipo de relação profunda
entre o homem e a natureza, que o cerca, pode ser observado no poema A
Alegria dos Peixes. Chung
Tzu e Hui Tzu Atravessavam
o rio Hao Pelo
Açude. Disse
Chuan: veja
como os peixes Pulam
e correm tão livremente: Isto
é sua felicidade. Responde
Hui: Desde que você não é um peixe Como
sabe O que
torna os peixes felizes? Chuang
respondeu: Desde
que você não sou eu. como
é possível que saiba o que
eu sei o que
torna os peixes felizes? Hai
argumentou: Se eu não sendo você não
posso saber o que você sabe daí
conclui que você não
sendo peixe não
pode saber o que eles sabem Disse
Chuan; _Um
momento: vamos retornar a pergunta primitiva, o que
você me perguntou foi Como
você sabe O que
torna os peixes felizes? Dos
termos da pergunta você não sabe,
evidentemente,o que eu sei o que
torna os peixes felizes Conheço
as alegrias dos peixes do rio através da minha própria alegria a medida que vou caminhando
à beira do mesmo rio. Na lagoa antiga uma rã
mergulha o som da água, plop Esta
visão que muitos críticos apressados associam ao
naturalismo ou simbolismo, cometem
um erro profundo não percebendo que esta arte não é, como diz Otávio Paz(2), uma
formulário literário, mas uma maneira de viver inteiramente a riqueza e a
diversidade humana.E não cabe nas classificações literárias tão
a gosto de nossos banalizadores míopes do mundo. Otávio
Paz, também afirma que os objetivos de Basho não são apenas artísticos,
mas espirituais. Assim,
esta arte praticada por Basho e seus continuadores, faz esta inter-relação
do homem com seus diversos aspectos espirituais onde a natureza externa com
seus reinos diversos é coadjuvante neste processo. Quando
o poeta Onitsura (1660-1738),
escreve: Obediência verdadeira: Silenciosamente
às flores falam A
orelha interna (9) Está
falando desta conversa mística, entre os aspectos externos da natureza e a
capacidade do homem de apreender e obedecer a estes ritmos não apenas
vendo, mas ouvindo, sentido a natureza em suas manifestações. Outro
aspecto importante desta arte mística é o satori.
O haiku é uma proeza verbal que exige do autor enorme poder de síntese
capaz de arrancar o leitor de uma realidade que ele está habituado e jogá-la
em outra completamente diversa. Isto é feito com uma economia de palavras
surpreendente, o hai ku como a arte zen, que abrange a mudança de expressão
do ator do teatro nô, a cerimônia do chá, passando pela a arte da
caligrafia, está impregnado pelo mesmo princípio. É uma arte objetiva e
bem definida: é um condão para a alma que pode provocar a iluminação (satori)
para quem entra em contato profundo com este processo artístico. Otávio
Paz o considera hai kai o próprio satori.
Como nós
ocidentais somos frutos de uma cultura materialista diversa temos dificuldade de
entender que iluminação é esta e qual o seu valor. Percebemos nesta arte
alguma coisa de estranho, misterioso, belo, mas não a entendemos. "em
cima da neve o
corvo,esta manhã
pousou
bem de leve." (7) A diferença, a delicadeza, a surpresa, as antíteses que a
vida está sujeita em que o poema é a síntese, pode ser apontada neste
poema,ele nos mergulha de cabeça
em outro universo onde não há contrastes e a sua beleza é apenas sentida
impossível de ser verbalizada, pois não existe nada além do já enunciado no poema. A
simplicidade desta arte é enganosa, ele exige de quem o cria este
comprometimento,o mesmo envolvimento espiritual,não necessariamente zen
budista, mas com com uma visão do universo e suas manifestações, senão
torna-se um pequeno verso banal de três linhas como milhões de outros que
existem vazios de sentido e razão d´`ètre.
AS TRÍADES BARDICAS O mais próximo
a esta construção de três versos,no ocidente, são as tríades bárdicas,de origem celta.As tríades
seguem a metrologia druídica, todas elas são compostas em função do número
três e totalizam 81 versos (que dividido por três é igual a 27 que
somado entre si é igual a nove). Por estas relações, de acordo com as tríades,
de três, nove, 27 e 81 se estrutura a construção do universo e as múltiplas
inter-relações com os seres
que dele fazem parte.
De profunda conotação espiritual as tríades são usadas até hoje
pelos bardos para ensinar estes diferentes aspectos do universo e da criação
e são praticamente imutáveis em seu texto e estrutura: "Existem três
círculos, Keugant, Abred e Gwenwed"(5). Mas o
acesso a estas tríades está restrito a uns raros integrantes destes
grupos bárdicos que continuam as utilizando em seu aspecto tradicional de
ensino e portanto, distante da cultura ocidental, primária, vulgar e imediatista. O uso
do três e seus múltiplos, tanto nas tríades, quanto no hai ku, obedece
aos mesmo princípio, onde arte mantém seu sentido em busca e, em relação
com o eterno. Neste
aspecto, também, é impossível esquecer o rubai, com seus três versos
rimados entre si e o quarto branco, gênero clássico das letras árabes
que o poeta sufi, persa, Abu ol-Fath ebn-Ebrahim ou Omar Khayyam imortalizou:
Um livro de poesia, a urna de vinho e a amada
No deserto a cantar, sonorosa a meu lado,
Mudando a solidão num Éden encantado!" (6) Apesar
de existir na poesia (de origem greco-romana) em alguns casos, este rigor
matemático onde se pode perceber que
sistema usado na construção destes poemas têm raízes comuns com
o sagrado nas relações de harmonia e métrica,pois cada formulação também indica uma relação cósmica, como a sextilha (seis versos de sete sílabas:o
seis que geometricamente equivale a figura dos dois triângulos
sobrepostos, indicando a ação entre deuses e os seres humanos e o sete;
sete musas, sete planetas, sete dias da semana),nos hexâmetros, no
alexandrino (doze sílabas, os doze pontos do zodíaco), o poema sáfico,
entre outros,onde a rima e a métrica se confundem e a harmonia é forçada,mas pouco sobrou destes gêneros poéticos de importante ou de interesse e
o que resta está muito distante da síntese obtida pelo haikai. Bibliografia Jornal
das Letras-jornal de literatura, número 12,editado em Porto Alegre- RS(*) Carlos
Fleitas/www.millikin.edu/haiku/ writerprofiles/CarlosFleitas.html (1) Octavio Paz y Eikichi Hayashiya: Matsuo Basho Sendas de Oku, Breve
Biblioteca de Respuesta, Barral Editores, Barcelona España 1970 (2) O
hai-kai verde-amarelo em discussão/ www.kakinet.com (3) Tomas
Merton -A Via de Chung Tzu-Editora Vozes-Brasil (4) As 81
Tríades /Coleção do autor (5) Omar Kayyam. Rubayat/Introdução tradução e notas de Jamil Almansur Haddad baseado na tradução de Edward J. Fitzgerald Ed.
Civilização Brasileira- 1964(6) Hai- Kais/Millôr Fernandes Ed. - L& PM Pocket (7) Dicctionnaire des
Kanji Japonais/ http://kanji.free.fr/(8)
|
|
|
|
O livro Poemas para ler em voz alta pode ser encontrado através da editora editoraoffice@yahoo.com.br ou no site da Livraria Cultura |
|
|