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                                                         I

                                                O  Sobrado

            

             

                                      "Cortina vulgar de decência urbana

                                        defende a nudez dolorosa das ruínas do sobrado"

                                                                        Velho Sobrado (Cora Coralina)

 

  O acaso  levou-me  aquela rua

esquecida

e o Sobrado,

surgiu

na minha frente,

em ruínas.

 

Não pude evitar olhar para as janelas

e...de repente,

teu vulto passou na vidraça!

Foi um instante, quase o reflexo,

mas a  surpresa foi tanta

que sentei na calçada

esperando rever teu rosto.

Era impossível e improvável...

poderias estar revendo a casa.

 

Encostado a uma árvore e com afasia,

lembrei aos poucos e quase sem querer

do piano de cauda na sala

que vendemos para um judeu

com a louça da Companhia das Índias

e tomamos banho de dinheiro.

 

Ouvi dona Mariquinha

reclamando para negra do seu chá

de camomila.

E você subindo as escadas,

quando te conheci

e comentei: _ que casa linda!

_ também gosto dela! Foi a tua resposta.

Encantado no teu sorriso

transferi todos

os compromissos do dia

e saímos a caminhar até que noite nos pegou

por inteiro e

andamos nas ruas do bairro

de madrugada

falamos tanto que

ficamos roucos e

ao fechar os olhos entre teus braços

sonhei com uma montanha azul.

 

Dava para ouvir nossos risos

confusos

entre as escadas e o ateliê de pintura

onde os morcegos dormiam de dia

e nos escondíamos às horas cheias

e as vazias

que o relógio de carrilhão teimava

em anunciar.

E não foi apenas teu vulto

que vi na vidraça

haviam outros, estampados

como um bordado, rendado, antigo

que amarelou

esquecido num canto.

 

Ali estava o Sobrado, belo, gigante, triste e envelhecido,

perdera o brilho

aguardando um operário indiferente

botar abaixo suas paredes.

 

Consegui ver o assoalho marcado

com passos inúteis, com móveis arrastados,

com passos de dança nos bailes para a sociedade,

com as reuniões de política,

e nosso amor escondido atrás

das portas.

 

Sei porque se destrói  casas

como este Sobrado,

é incômodo e inútil

as cidades precisam de espaço

e  todos precisam de dinheiro

e se as lembranças tivessem

algum valor

nos desfaríamos delas com rapidez e facilidade

esquecendo os abraços,

os beijos, os choros convulsivos, as preocupações,

as precauções e as risadas que ecoaram nos dias

felizes de verão.

Esquecemos tudo,

mas as pedras não esquecem,

algo ficou gravado num pedaço daquele chão,

 impossível de tirar, raspar, lavar ou mesmo arrancar,

também ficou um pouco

naquelas plantas feias

que nasceram sem pedir licença e que

apenas os pássaros sabem a razão

de  existir.

 

Ouvi o barulho da cozinha,

a panela de feijão arrastando no fogão

os talheres de prata

e os assuntos que não se podia

falar perto de dona Mariquinha

que enlouquecia e queria pular do primeiro

andar.

Lembrei um pouco do nosso amor,

dos gansos grasnando a

nossa passagem, das pintas na tua

pele

e nossas tatuagens feitas com tuas

tintas,

nas luas cheias

quando uivávamos como lobos sedentos

pelo nosso sangue,

nos cobríamos de pelos,

 nos arranhávamos como poucos

e quase nos matávamos de tanto

amar.

E a vida seria só aquilo, não haveria o depois.

 

E os quadros que pintamos?

que ninguém queria, nem a tia Generosa.

Os conselhos de família, dos amigos, estudando

nosso caso,

tudo e todos contra nós

e o nosso amor de risos, riscos e fugas intermináveis.

 

Passaram na janela,

num  instante teus avós, tios, primos

e primas, as fotos dos mortos na parede,

os sobrenomes importantes, a

altiva elegância e as jóias de família,

hoje no prego de algum agiota.

 

Como um idiota, perguntei ao Sobrado

onde tinha ido aquela gente

e a resposta veio depois de enorme silêncio:

_algumas noites aqui, são bem animadas.

Aparecem todos os fantasmas, cantam,

dançam, contam piadas

e até a lareira se acende, bebem conhaque,

 fumam, você também é convidado...

 

Interrompendo aquela conversa sem propósito

alguém me tocou no ombro.

_Moço, o senhor precisa de alguma coisa?

Esta passando mal? Está sem cor...

_Não, não, grato, não foi nada, foi um surto,

 não é  doença, é um ataque...

E a  culpa é daquele velho Sobrado!

Grato, obrigado...vou ficar sentado aqui,

 apagando se possível,

este velho Sobrado

do meu passado.

  Uma quadra revelada das Centúrias *  
 


 

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