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marco celso huffell viola poemas
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I O Sobrado
"Cortina
vulgar de decência urbana
defende
a nudez dolorosa das ruínas do sobrado"
Velho Sobrado (Cora Coralina) esquecida
e
o Sobrado, surgiu na
minha frente, em
ruínas. Não pude evitar olhar para as janelas e...de
repente, teu
vulto passou na vidraça! Foi
um instante, quase o reflexo, mas
a surpresa foi tanta que
sentei na calçada esperando
rever teu rosto. Era
impossível e improvável... poderias
estar revendo a casa. Encostado
a uma árvore e com afasia, lembrei
aos poucos e quase sem querer do
piano de cauda na sala que
vendemos para um judeu com
a louça da Companhia das Índias e
tomamos banho de dinheiro. Ouvi dona Mariquinha reclamando
para negra do seu chá de
camomila. E
você subindo as escadas, quando
te conheci e
comentei: _ que casa linda! _
também gosto dela! Foi a tua resposta. Encantado
no teu sorriso transferi
todos os
compromissos do dia e
saímos a caminhar até que noite nos pegou por
inteiro e andamos
nas ruas do bairro de
madrugada falamos
tanto que ficamos
roucos e ao
fechar os olhos entre teus braços sonhei
com uma montanha azul. Dava para ouvir nossos risos confusos entre
as escadas e o ateliê de pintura onde
os morcegos dormiam de dia e
nos escondíamos às horas cheias e
as vazias que
o relógio de carrilhão teimava em
anunciar. E
não foi apenas teu vulto que
vi na vidraça haviam
outros, estampados como
um bordado, rendado, antigo que
amarelou esquecido
num canto. Ali
estava o Sobrado, belo, gigante, triste e envelhecido, perdera
o brilho aguardando
um operário indiferente botar
abaixo suas paredes. Consegui ver o assoalho marcado com
passos inúteis, com móveis arrastados, com
passos de dança nos bailes para a sociedade, com
as reuniões de política, e
nosso amor escondido atrás das
portas. Sei porque se destrói
casas como
este Sobrado, é
incômodo e inútil as
cidades precisam de espaço e todos precisam de dinheiro e
se as lembranças tivessem algum
valor nos
desfaríamos delas com rapidez e facilidade esquecendo
os abraços, os
beijos, os choros convulsivos, as preocupações, as
precauções e as risadas que ecoaram nos dias felizes
de verão. Esquecemos
tudo, mas
as pedras não esquecem, algo
ficou gravado num pedaço daquele chão, impossível de tirar, raspar, lavar
ou mesmo arrancar, também
ficou um pouco naquelas
plantas feias que
nasceram sem pedir licença e que apenas
os pássaros sabem a razão de existir. Ouvi
o barulho da cozinha, a
panela de feijão arrastando no fogão os
talheres de prata e
os assuntos que não se podia falar
perto de dona Mariquinha que
enlouquecia e queria pular do primeiro andar. Lembrei
um pouco do nosso amor, dos
gansos grasnando a nossa
passagem, das pintas na tua pele e
nossas tatuagens feitas com tuas tintas, nas
luas cheias quando
uivávamos como lobos sedentos pelo
nosso sangue, nos
cobríamos de pelos, nos arranhávamos como poucos e
quase nos matávamos de tanto amar. E
a vida seria só aquilo, não haveria o depois. E os quadros que pintamos? que
ninguém queria, nem a tia Generosa. Os conselhos de família, dos amigos, estudando nosso
caso, tudo
e todos contra nós e
o nosso amor de risos, riscos e fugas intermináveis. Passaram
na janela, num instante teus avós, tios, primos e
primas, as fotos dos mortos na parede, os
sobrenomes importantes, a altiva
elegância e as jóias de família, hoje
no prego de algum agiota. Como um idiota, perguntei ao Sobrado onde
tinha ido aquela gente e
a resposta veio depois de enorme silêncio: _algumas
noites aqui, são bem animadas. Aparecem
todos os fantasmas, cantam, dançam,
contam piadas e
até a lareira se acende, bebem conhaque, fumam, você também é convidado... Interrompendo aquela conversa sem propósito alguém
me tocou no ombro. _Moço,
o senhor precisa de alguma coisa? Esta
passando mal? Está sem cor... _Não,
não, grato, não foi nada, foi um surto, não é doença, é um ataque... E
a culpa é daquele velho
Sobrado! Grato,
obrigado...vou ficar sentado aqui, apagando se possível, este
velho Sobrado do meu passado.
Uma quadra revelada das Centúrias * |
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